Gritar é um ato desde sempre reprimido. Esses dias, na catequese de crisma, fazíamos o estudo bíblico do Cego Bartimeu (Mc 10, 46-52) e algumas características dele trazem significado ao Grito dos Excluídos.
Bartimeu era um homem sem nome. O prefixo “Bar” significa filho, Timeu era nome de seu pai, portanto ele não tinha valor, era apenas o filho de Timeu, assim como tantos desvalorizados que há hoje no Brasil.
Devido a interpretação dada à lei de Moisés, a cegueira de Bartimeu o fazia impuro, tendo que morar fora da cidade, à margem de uma estrada, cobrir-se sempre que alguém passasse perto, jamais ficar de pé e conversar com as pessoas, podendo apenas estender as mãos para esmolar.Tudo isso para que estas pessoas não se tornassem impuras por estar com ele.
Semelhantemente, mecanismos injustos de reprodução social no Brasil ainda mantém, geração após geração, a exclusão de vários grupos sociais.
Marginalizados, os negros, indígenas e ciganos são minorias nos centros urbanos e maioria em favelas e periferias que fundaram no passado, comunidades geralmente abandonadas pelo poder público, sem escolas, sem postos de saúde, sem espaços de esporte e lazer. O que resta a esses jovens de periferia? De que outra forma não reproduzirão socialmente a vida sofrida que os pais, avós e demais antepassados tiveram?
Ao perceber quem passava na estrada e proibido de falar,o cego começou a gritar por Jesus. Os discípulos que, como os padres e pastores de hoje, tinham a missão de trazê-lo a Cristo, repreenderam-no, tentaram silenciá-lo, impedi-lo de incomodar “a paz”da sociedade, e ele gritava ainda mais alto. Ouvindo seus gritos, Jesus ordenou que ao invés de reprimir, trouxessem-no para o meio.
Desde 1995, as pastorais sociais da Igreja Católica do Brasil e a CNBB, vem promovendo atos na Semana da Pátria e no Dia da Independência, unindo fé e luta social,chamados GRITO DOS EXCLUÍDOS. Apesar de ser promovido pela Igreja Católica, na própria Igreja há seguimentos que preferem uma falsa calmaria, aconselhando o silêncio das vítimas do que enfrentar as forças poderosas que os vitimam, como fazia Jesus.
Para resistir a isso, além das pastorais sociais católicas, o Grito dos Excluídos foi abraçado pelas igrejas que compõem o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), pelos Movimentos Sindicais, Sociais (do Campo e da Cidade), Estudantis (Secundarista e Universitário), Populares, Associações de Classes e todos que desejam gritar o que vivem.
E o que resta após o Grito dos Excluídos? Bartimeu largou o manto, saiu da margem, passou entre as pessoas que não deveria aproximar, chegou ao meio, pôs-se de pé diante de Jesus e seguiu pelo meio do caminho com todos.